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Após vencer o câncer de mama, jornalista do Acre transforma dor em missão

Um pequeno caroço percebido durante o banho mudou a vida de Ana Paula Xavier. Em fevereiro de 2022, aos 33 anos, a jornalista, professora, escritora, esposa e mãe identificou um nódulo na mama esquerda. Sem histórico familiar de câncer de mama, ela não imaginava que enfrentaria a doença tão jovem. Menos de um mês depois, em 16 de março, estava sozinha diante da tela do computador quando leu o resultado que jamais esqueceria: carcinoma ductal invasivo.

O diagnóstico trouxe à tona o medo de morrer, mas, principalmente, o temor de não acompanhar o crescimento do filho Gabriel. Naquele momento, os sonhos, a família e o futuro passaram a ser vistos sob outra perspectiva.

“Naquele instante, senti como se o chão desaparecesse debaixo dos meus pés. O medo tomou conta de mim. Pensei na possibilidade de morrer, nos sonhos que ainda queria realizar, no meu marido, Nilton, e, principalmente, no meu filho Gabriel, que ainda era tão pequeno. Eu não tinha medo apenas da doença. Tinha medo de não estar presente para acompanhar o crescimento do meu filho.”

A primeira pessoa para quem ligou foi o marido. Pela voz dela, Nilton percebeu que algo grave havia acontecido e foi ficar ao seu lado. Quando Ana Paula contou o resultado, recebeu um abraço. Em meio ao silêncio e às lágrimas, os dois começaram a enfrentar juntos a maior batalha de suas vidas.

O tratamento e a mulher diante do espelho

A partir do diagnóstico, a rotina passou a ser marcada por consultas, exames, procedimentos e medicamentos. Ana Paula passou por uma cirurgia para retirada do tumor, seis sessões de quimioterapia, 18 sessões de radioterapia e tratamento complementar com imunoterapia.

A quimioterapia trouxe alterações no paladar, reações na pele, desconfortos físicos, cansaço e queda dos cabelos. Entre os desafios, um dos mais difíceis foi se reconhecer diante do espelho.

“Lembro que, quando meus cabelos começaram a cair, decidi cortá-los sozinha, dentro do banheiro. Não queria que ninguém presenciasse aquele momento. Para mim, a perda dos cabelos representava uma fragilidade que eu ainda não sabia como mostrar ao mundo. Coloquei minha peruca e saí tentando demonstrar uma força que, muitas vezes, eu mesma não sabia de onde vinha.”

Cuidar da aparência, fazer as unhas e se maquiar tornou-se uma forma de preservar a autoestima. Não era apenas vaidade, mas uma maneira de manter a própria identidade em meio às mudanças provocadas pelo tratamento.

“Durante todo o tratamento, procurei preservar minha autoestima. Gostava de me arrumar, cuidar das unhas, da maquiagem e da aparência. Não era apenas vaidade. Era uma maneira de continuar me reconhecendo, de lembrar que, apesar do câncer, eu continuava sendo Ana Paula.”

A jornada também revelou que nem todos os dias seriam de coragem. Houve momentos de choro escondido, medo e incerteza. Algumas pessoas de quem esperava apoio se afastaram, enquanto outras, com quem tinha menos proximidade, se tornaram fundamentais.

Uma família inteira na luta

Se o diagnóstico trouxe incertezas, a presença da família ajudou Ana Paula a atravessar os momentos mais difíceis. O marido, Nilton, esteve com ela em todas as etapas. A mãe, Francisca, carinhosamente chamada de mainha, praticamente deixou a própria rotina para cuidar da filha, da casa e da família. Gabriel, ainda pequeno para compreender tudo o que acontecia, tornou-se uma das principais razões para que ela desejasse viver.

A fé também teve papel importante durante o tratamento. Nos dias em que as forças pareciam acabar, Ana Paula encontrava na oração um lugar de acolhimento e paz.

“Minha família foi meu alicerce. Meu marido, Nilton, esteve comigo em todas as etapas. Minha mãe, Francisca, a quem carinhosamente chamo de mainha, praticamente deixou sua rotina para cuidar de mim, da minha casa e da minha família. E meu filho Gabriel, mesmo sem compreender completamente o que estava acontecendo, era uma das maiores razões pelas quais eu desejava viver.”

Ela também atribui à fé a capacidade de encontrar serenidade mesmo quando não conseguia compreender tudo o que estava vivendo.

“Minha fé também foi essencial. Em muitos momentos, quando minhas forças pareciam acabar, era na oração que eu encontrava paz. Sempre acreditei que Deus estava cuidando de mim, mesmo quando eu não conseguia compreender tudo o que estava vivendo.”

A última quimioterapia celebrada pelas ruas de Rio Branco

Um dos momentos mais marcantes aconteceu no dia da última sessão de quimioterapia. Nilton preparou uma surpresa: decorou a Kombi da família com balões e colocou uma faixa com a frase: “Minha última quimioterapia, louve a Deus, buzine!”.

O casal percorreu as ruas de Rio Branco e encontrou manifestações de carinho pelo caminho. Pessoas que não conheciam a história de Ana Paula buzinaram, sorriram e comemoraram com eles.

Depois de meses de medo, exames e incertezas, a conclusão daquela etapa do tratamento ganhou uma celebração coletiva. A lembrança permanece como um dos símbolos mais emocionantes de sua trajetória.

Da dor nasceu “A força da gratidão”

Ainda durante o tratamento, a mãe incentivou Ana Paula a escrever sobre o que estava vivendo. A princípio, ela resistiu à ideia, mas, ao colocar os sentimentos no papel, percebeu que escrever também poderia ajudá-la a compreender as próprias emoções.

A experiência deu origem ao livro A força da gratidão, no qual compartilha os desafios enfrentados, a importância da fé e do apoio familiar e as lições que aprendeu durante a luta contra o câncer.

“Mais do que contar uma história de superação, meu desejo era mostrar a outras mulheres que existe vida depois de um diagnóstico. Que o câncer não precisa representar o fim dos sonhos, dos projetos ou da esperança.”

A obra marcou uma transformação: uma experiência inicialmente vivida de forma íntima passou a alcançar outras pessoas. Ana Paula encontrou na escrita uma maneira de dar sentido à própria história e de compartilhar aquilo que gostaria que outras mulheres soubessem ao enfrentar um diagnóstico semelhante.

A jornalista que passou a usar a própria história para conscientizar

Depois do câncer, Ana Paula também passou a atuar na conscientização sobre a doença. O que começou como uma experiência pessoal se transformou em uma causa coletiva.

Hoje, participa de palestras, encontros, campanhas educativas e ações de conscientização em igrejas, instituições e outros espaços. Sua atuação procura alcançar especialmente mulheres que acreditam que o câncer de mama é uma realidade distante por causa da idade ou da ausência de histórico familiar.

“Como jornalista, sempre acreditei no poder da comunicação. Mas, depois do câncer, descobri que minha voz poderia ir muito além de informar. Ela poderia acolher, despertar, conscientizar e, quem sabe, ajudar a salvar vidas.”

Quando compartilha sua experiência diante de uma plateia, Ana Paula fala como profissional da comunicação, mas também como mulher que conhece a angústia de esperar por um resultado, o medo de não acompanhar o crescimento do filho e a dificuldade de retomar a rotina depois de uma experiência tão intensa.

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