O show de Roberto Carlos, realizado nesta quinta-feira (5), em Rio Branco, deixou uma reflexão que vai muito além das canções que atravessaram gerações: o Acre tem público, tem interesse e tem espaço para uma programação cultural mais diversa. O que falta é ampliar as oportunidades.
Durante anos, o calendário de grandes eventos no estado tem reservado um espaço privilegiado ao sertanejo. Não há problema algum nisso. O gênero tem sua importância, movimenta a economia, reúne multidões e possui uma legião de admiradores. O problema começa quando uma única expressão musical passa a ocupar quase todos os espaços de visibilidade, investimento e promoção.
Ouvir Música MPB
A apresentação de Roberto Carlos mostrou que existe uma demanda por outros estilos, outras experiências e outros públicos. Pessoas de diferentes idades se mobilizaram para acompanhar um artista cuja trajetória representa uma parte importante da história da música brasileira. Famílias inteiras estiveram presentes, algumas reunindo gerações que cresceram ouvindo as mesmas canções.
O Acre não pode ser visto como um estado onde apenas o sertanejo tem capacidade de atrair público. Existe uma população que aprecia MPB, samba, pagode, rock, música regional, música instrumental e tantos outros gêneros que raramente recebem o mesmo protagonismo nas grandes programações.
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É preciso compreender que diversidade cultural não é apenas uma expressão bonita para discursos institucionais. É uma responsabilidade de quem organiza eventos, define investimentos e estabelece prioridades para o setor.
Não se trata de diminuir o sertanejo, mas de questionar por que tantos outros estilos encontram tão poucas oportunidades.
E aqui cabe uma crítica direta ao Governo do Estado e às prefeituras acreanas. É perceptível a preferência, nas grandes programações financiadas com recursos públicos, pela contratação de artistas do sertanejo, do funk e do pagode. São gêneros que merecem espaço e reconhecimento, mas não deveriam concentrar a atenção dos gestores enquanto outros segmentos musicais encontram dificuldades para chegar aos mesmos palcos. Por que há tanta disposição para investir nessas atrações e tão pouca iniciativa para trazer grandes nomes da MPB, do rock, da música instrumental e de outros estilos? O dinheiro público pertence a todos, inclusive àqueles que possuem preferências musicais diferentes. É necessário que os governos revejam suas prioridades e adotem critérios mais plurais na distribuição dos investimentos culturais.
O show de Roberto Carlos também evidenciou algo importante: existe um público que não necessariamente frequenta os eventos tradicionalmente oferecidos no estado. Pessoas que talvez não se sintam contempladas pelas atrações habituais, mas que também querem sair de casa, ocupar os espaços públicos e vivenciar grandes espetáculos.
Ouvir Música MPB
Quando a programação cultural se torna repetitiva, parte da população acaba ficando de fora. E cultura, sobretudo quando envolve recursos públicos, precisa ser pensada para todos.
Isso significa abrir espaço para artistas consagrados de diferentes gêneros, mas também valorizar quem produz música dentro do próprio Acre. Temos músicos, compositores, intérpretes e grupos culturais que precisam de oportunidades reais, estrutura e reconhecimento.
Não adianta defender a diversidade apenas quando um grande nome nacional desembarca por aqui. É necessário transformar essa discussão em política cultural permanente, com planejamento, continuidade e espaço para a produção local.


















