O clima em Brasília azedou entre o Palácio do Planalto e o Centrão. O líder do governo no Congresso, deputado José Guimarães (PT-CE), revelou neste fim de semana que a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, prepara uma lista de cortes de cargos indicados por partidos do bloco nos próximos dias.
A reação veio depois da derrota do governo na votação da medida provisória do IOF. O Planalto esperava o apoio de legendas como PP, União Brasil e Republicanos — que haviam fechado acordo com o governo, mas o combinado desandou após uma interferência direta do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Resultado: os partidos recuaram e votaram contra Lula.
Em entrevista, Guimarães não poupou palavras:“Ela disse que está com a lista e eu sei aqui do Ceará que tem cargos importantes. Ela disse que vai meter a faca. […] Ela está muito decidida. E vou dizer mais. Eu estava na reunião com ela e o Lula. Lula disse: ‘Gleisi, você agiliza, viu? E mexa no vespeiro da Caixa Econômica para começar’”, afirmou o deputado.
Segundo interlocutores em Brasília, os cortes não ficarão restritos ao Ceará. O “canetaço” de Lula deve atingir aliados do Centrão em vários estados, inclusive no Acre. A tesoura da ministra deve alcançar cargos de partidos como União Brasil, PP, Republicanos e PSD, que hoje têm espaço no governo federal, mas dificilmente estarão no palanque do PT nas eleições de 2026.
No Acre, o caso mais simbólico é o do senador Sérgio Petecão (PSD), que controla indicações em órgãos estratégicos, como a Conab e o Ministério da Pesca. Mesmo com aliados nomeados no governo Lula, Petecão não deve compor a chapa petista no próximo pleito, o grupo do presidente deve lançar Jorge Viana como candidato ao Senado.
Fontes ouvidas pela coluna afirmam ainda que alguns deputados federais, mesmo declaradamente de oposição ao governo Lula, também detêm cotas de cargos federais em razão de acordos partidários firmados em Brasília. São justamente essas nomeações que estão na mira da ministra.
Como se diz nos bastidores: muitos só querem o “venha a nós”, mas o “vosso reino” que é bom… nada.
Petecão e o dilema de 2026: melhor com o PT do que sozinho
Nos bastidores, que se avalia para o senador Sérgio Petecão (PSD) parece cada vez mais evidente: pode ser mais inteligente para o parlamentar se aproximar de vez do PT e compor o grupo de Jorge Viana nas eleições de 2026.
Petecão é hoje um senador da base do governo Lula no Senado e mantém indicações em cargos importantes do governo federal no Acre. Apesar disso, segue distante politicamente do PT no estado, uma equação que, na prática, tem se mostrado insustentável.
Afinal, o PSD de Petecão dificilmente encontrará espaço nas chapas do PP, comandado por Mailza Assis e Gladson Cameli, ou do Republicanos, de Alan Rick, que devem polarizar o campo da direita no Acre. O risco de repetir 2022 e disputar isolado é grande, e pode custar caro.
Se insistir em sair sozinho, o senador corre o risco de ver seu grupo minguar e não eleger sequer um parlamentar estadual ou federal. Já numa composição com o PT, Petecão teria caminho aberto para concorrer ao Senado como segundo nome da chapa de Jorge Viana, cenário que, politicamente, soa bem mais confortável e viável. Além de estar em uma chapa com outros partidos do campo progressista.
Bittar dá o recado: quem decide é Gladson
O senador Márcio Bittar deixou os últimos dias para mandar um recado claro a aliados e adversários: a palavra final sobre as eleições de 2026 será do governador Gladson Cameli. Bittar tratou de encerrar de vez os rumores de que o prefeito Tião Bocalom poderia disputar o Senado, afirmando que a decisão sobre candidaturas majoritárias passará exclusivamente por Gladson. O gesto mostra que o senador mantém fidelidade total ao grupo do governador e, mais que isso, sinaliza que não há espaço para aventuras políticas fora do comando do Palácio Rio Branco.
Aliança em construção
Nos bastidores, ganhou força a possibilidade de a ex-deputada federal Jéssica Sales ser a vice de Mailza Assis na disputa pelo governo em 2026. Após a entrevista do governador Gladson Cameli, que citou o nome de Jéssica como uma opção viável —, as conversas se intensificaram. O grupo progressista de Mailza iniciou um diálogo direto com o MDB da ex-parlamentar, e a aliança, ao que tudo indica, tem grandes chances de se concretizar.
Puxão de orelha no alto escalão
O clima nos bastidores do Palácio Rio Branco azedou nos últimos dias. Fontes da coluna revelam que secretários do alto escalão do governo Gladson Cameli levaram um puxão de orelha direto do governador. O motivo: alguns teriam se empolgado demais e passaram a declarar apoio público — e até articular politicamente, com possíveis candidatos para as eleições de 2026.
Gladson, conhecido por evitar se antecipar em disputas eleitorais, teria sido categórico durante a bronca: “ninguém fala por mim”. A ordem agora é clara, nada de comprometer o governo com movimentações políticas antes da hora.
O recado foi entendido como uma tentativa de conter o avanço das alas que já se movimentam para 2026, enquanto Gladson tenta manter o foco na gestão e na unidade do grupo governista.



















