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Líder Ashaninka critica transformação de floresta em mercadoria

O líder indígena Francisco Piyãko, do povo Ashaninka, participou nesta quinta-feira (26) do painel de Extrativismo Sustentável e Economia da Amazônia, Seminário Internacional de Bioeconomia e Sociodiversidade – Txai Amazônia, realizado na Universidade Federal do Acre (UFAC), em Rio Branco, e refletiu sobre a viabilidade de colocar em segundo plano as tradições para atender acordos comerciais.

Piyãko enfatizou que a sustentabilidade, para seu povo, é prática e intrinsecamente ligada à floresta. “Nada está escrito nas árvores, mas descobrimos, ao longo do tempo, a função de cada uma e seu espírito”, afirmou, explicando como os Ashaninka desenvolveram um conhecimento milenar que sustenta sua existência. Ele descreveu a autossuficiência de sua comunidade, que planta algodão, produz roupas, colares, instrumentos musicais e equipamentos de caça e pesca, sem depender de indústrias externas. “Se o mundo dos tecidos parar, isso não nos afeta. Vivemos da floresta rica que nos dá condições de existir”, destacou.

O líder alertou, no entanto, para os desafios que ameaçam esse modo de vida. Segundo ele, influências externas, como contratos de fornecimento de produtos, frequentemente desestruturam as comunidades indígenas, priorizando lucros em detrimento da sustentabilidade social e ambiental. Piyãko criticou a lógica de transformar a floresta em mercadoria, que leva à exploração desenfreada e à introdução de lixo e alimentos industrializados nos territórios indígenas, sem políticas de mitigação. “Vender produtos para comprar comida é atraso. Nosso território precisa oferecer nossos alimentos e manter nossa cultura viva”, defendeu.

Inspirado pela história de retomada cultural de seu povo, que superou a exploração como mão de obra no passado, Piyãko reforçou a importância de manter a floresta como um espaço coletivo, sem cercas ou divisões, onde todos compartilham a responsabilidade de cuidar do território. Ele exemplificou com a prática de construir casas que duram poucos anos, permitindo que as novas gerações aprendam e se tornem especialistas em suas comunidades, sem depender de serviços externos. “Nossa casa é o território, a floresta. É onde nos protegemos e vivemos”, afirmou.

O líder expressou preocupação com o extrativismo em larga escala, como o manejo de madeira, que muitas vezes não cumpre planos de sustentabilidade e deixa impactos irreversíveis. “Vejo pátios cheios de madeira nas estradas, mas o lucro não volta para as comunidades. O cuidar é diferente de explorar. Precisamos de uma relação de troca que respeite nossas necessidades e preserve a floresta”, disse. Ele destacou que o valor da floresta vai além de algumas espécies comercializáveis, abrangendo o equilíbrio de todos os elementos, como plantas e animais, que sustentam a vida indígena.

Piyãko concluiu com um chamado à reflexão sobre o modelo de desenvolvimento econômico, alertando que a exploração desenfreada pode levar a crises irreversíveis, sem respostas adequadas do Estado. “O que vem de fora deve ser complementar, não transformar nossa floresta em produto. Quem está fora não entende o valor do todo, só quem vive na floresta sabe”, finalizou. Sua fala reforçou a urgência de reconhecer a ciência e a cultura indígenas como pilares para uma bioeconomia verdadeiramente sustentável, que respeite a sociodiversidade e garanta a continuidade dos modos de vida tradicionais.

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