Uma conversa entre o jornalista Altino Machado e um advogado que é amigo e defensor de Francisco Valadares Neto, investigado por suspeita de ser o mandante do assassinato da médica Elyne de Assis Nogueira, de 39 anos, em Brasiléia, foi divulgada nas redes sociais nesta quinta-feira (5). Durante o diálogo, o advogado afirmou que o uso da tornozeleira eletrônica teria provocado um forte abalo psicológico em Valadares.
A abordagem começou quando o advogado procurou Altino para questionar o motivo de o jornalista acompanhar e publicar informações sobre o caso. Na mensagem, ele perguntou se o interesse na investigação estaria relacionado a algum parentesco com a vítima ou a uma possível inimizade com Valadares
O jornalista respondeu que não possui qualquer relação familiar com a médica nem com o investigado. Também afirmou estar disposto a responder judicialmente caso publique alguma informação falsa.
Na sequência, Altino questionou o advogado sobre o comportamento de seu sócio e cliente, especialmente diante do que classificou como um histórico de conflitos com mulheres com quem Valadares teria se relacionado, apesar das demonstrações de amor pela própria mãe.
Em resposta, o advogado afirmou que conversou diversas vezes com Valadares sobre o assunto e atribuiu a mudança no comportamento psicológico do investigado ao fato de ter sido obrigado a utilizar tornozeleira eletrônica.
“O que posso lhe garantir, porque conversamos sobre isso várias e várias vezes, é que o que o transtornou foi ter de usar a tornozeleira, como se fosse um bandido. Isso realmente perturbou demais o psicológico dele”, afirmou.
Na sequência, o defensor descreveu Valadares como um homem narcisista, vaidoso e boçal. Segundo ele, a utilização do equipamento representava, para o investigado, uma espécie de sentença de morte.
Entenda o caso
Elyne de Assis Nogueira foi assassinada a tiros na noite de segunda-feira (2), enquanto estava em um estabelecimento comercial em Brasiléia, no interior do Acre. Um homem se aproximou da médica e efetuou disparos contra ela. A Polícia Civil investiga o crime como feminicídio e apura a participação de terceiros no planejamento e na execução.
A médica tinha uma medida protetiva contra o ex-companheiro, Francisco Valadares Neto, e utilizava um botão do pânico. Ele também era monitorado por tornozeleira eletrônica, por determinação judicial.
Antes do assassinato, o Ministério Público do Acre (MPAC) havia solicitado duas vezes a prisão preventiva de Valadares, em razão de episódios relacionados ao descumprimento das medidas protetivas. Os pedidos foram negados pela Justiça.
Na noite do crime, o sistema de monitoramento registrou dois alertas de aproximação entre o investigado e a área de exclusão estabelecida para proteger Elyne. Segundo informações divulgadas pelo Tribunal de Justiça do Acre (TJAC), a equipe responsável entrou em contato com Valadares e também com a médica.
Após o assassinato, Valadares foi encontrado desacordado em sua residência e levado ao Pronto-Socorro de Rio Branco, onde permaneceu internado. Na quarta-feira (4), a Justiça decretou sua prisão preventiva. De acordo com informações da Polícia Civil, ele deverá permanecer sob custódia policial enquanto estiver hospitalizado.
Além da investigação criminal, a Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Acre (OAB-AC) determinou a suspensão cautelar do exercício profissional de Valadares por até 90 dias, diante da gravidade dos fatos investigados. A medida é provisória e não representa condenação.
Debate sobre machismo e masculinidade
Surpreso com o teor da conversa, Altino Machado relatou que procurou um amigo para comentar o episódio. Na avaliação desse interlocutor, a declaração do advogado levanta uma reflexão sobre a violência contra as mulheres e o sentimento de posse e controle que ainda marca determinadas relações.
O amigo também questionou se a sensação de humilhação provocada pelo uso da tornozeleira poderia ter resultado em uma reação ainda mais grave caso Valadares tivesse sido preso.
Ele aproveitou para criticar a cultura de masculinidade dominante e a disseminação de discursos que reforçam estereótipos de comportamento masculino, especialmente entre os mais jovens. Ao final, mencionou a existência, no Acre, de iniciativas voltadas à chamada “machonaria”, expressão utilizada para descrever treinamentos ligados à valorização de uma masculinidade dominante. Com informações do jornalista Altino Machado:


















