A trajetória até a sala de aula nem sempre começa com a certeza de que se quer ser professora. Para Edinar Alves, que hoje leciona para uma turma do 4º ano na Escola Josué Fernandes, em Rio Branco, o caminho passou pelo trabalho desde cedo, pelas dificuldades financeiras e por uma rotina em que era necessário conciliar emprego e estudos. Anos depois, já formada em Pedagogia, ela também enfrentou o desafio de ensinar em uma escola rural de difícil acesso, onde encontrou crianças que nunca haviam tido contato com um lápis ou um caderno.
A história de Edinar se cruza com a de Vanderli Dias, professora do 1º e do 2º ano do ensino fundamental na Escola Rural Manoel Machado, em Rio Branco. As duas estudaram juntas na faculdade e dividiram parte da caminhada até a formação. Enquanto Edinar precisou trabalhar na produção de salgados e, posteriormente, como serviços gerais para custear os estudos, Vanderli enfrentou a rotina de trabalhar em uma loja durante o dia e frequentar as aulas à noite, contando com a ajuda de colegas para continuar.
Neste Dia dos Professores, celebrado em 15 de outubro, as histórias das duas educadoras mostram os desafios que antecedem a profissão e as experiências que dão sentido à permanência na educação.
Uma passagem de ônibus e o sonho que ainda não existia
Antes de pensar em ser professora, Edinar precisava encontrar maneiras de continuar estudando. Filha de uma família humilde, ela terminou o ensino médio aos 19 anos, mas ainda não tinha uma perspectiva profissional definida. Para frequentar as aulas, trabalhou como babá e usava o dinheiro recebido para pagar as passagens de ônibus.
“Eu terminei meu ensino médio com 19 anos. Eu era muito jovem, mas não tinha perspectiva nenhuma de futuro. Minha família era muito humilde. Eu me recordo que, para fazer meu ensino médio, eu precisava ir de ônibus e trabalhava de babá para poder ganhar a passagem”, conta.
“Era uma vez na semana. Eu saía do trabalho muitas vezes em cima da hora”, conta.
Na reta final da graduação, conciliar trabalho, família e estudos ficou ainda mais difícil. Edinar chegou a trabalhar em uma conveniência, em uma rotina que começava às 5h e podia se estender até a meia-noite nos fins de semana. A necessidade de pagar a faculdade, porém, fazia com que continuasse.
A oportunidade de trabalhar em uma escola com serviços gerais na área da limpeza permitiu que ela seguisse estudando até concluir a formação. A rotina incluía limpar salas, mesas e corredores, além de cumprir os horários de trabalho e levar a própria refeição.
“Eu fui trabalhar numa escola de zeladeira. Trabalhava limpando as salas, limpando as mesas, limpando os corredores, fazendo limpeza geral. Eu lembro que entrava às seis da manhã, parava às dez e voltava meio-dia até às quatro da tarde. A gente não tinha almoço, tinha que trazer de casa. E eu trabalhei nessa escola até terminar o resto da minha faculdade, porque precisava pagar”, relata.
A escola onde Edinar trabalhou como zeladora entre 2010 e 2011 é a mesma em que atua hoje como professora. A mudança de função, anos depois, representa uma das partes mais significativas de sua trajetória.
“Hoje eu sou muito grata, porque a escola em que trabalho é a mesma escola em que, lá em 2010, 2011, trabalhei de zeladeira. Às vezes eu olho as meninas trabalhando e lembro. Tem gente que diz: ‘A professora Edinar trabalhou aqui’. Eu trabalhei aqui como zeladeira e hoje trabalho como professora nessa mesma escola”, afirma.
A primeira sala de aula em uma escola rural
Logo após concluir a faculdade, Edinar participou de um processo seletivo da prefeitura. Quando soube que a vaga era em uma escola de difícil acesso, na zona rural de Rio Branco, decidiu aceitar, mesmo sabendo que teria de ficar longe da família e enfrentar um deslocamento complicado.
A escola ficava no ramal da Transacreana, no quilômetro 122, após um trecho em que ainda não havia asfalto. Para chegar ao local, era necessário percorrer mais 22 quilômetros de ramal. Na primeira viagem, em maio de 2012, o carro atolou 16 vezes.
“Quando eu vi que saiu o processo seletivo, me inscrevi. Fiquei feliz quando meu nome saiu no Diário Oficial. Depois, quando fui à prefeitura, soube que a escola era de difícil acesso, que tinha que morar lá e não dava para ir todos os dias para casa. Sem pensar, eu disse: ‘Eu vou’”, conta.
A chegada trouxe outro desafio: a estrutura precária da escola e a ausência de uma moradia para a professora. Uma moradora da comunidade, viúva e mãe de crianças que também seriam alunas de Edinar, ofereceu abrigo a ela durante o primeiro mês.
“Quando cheguei lá e olhei a escola, era uma escola de tábua, com brechas. Era bem humilde mesmo, precisava de muita coisa. Disseram que eu ia morar na escola porque não tinha uma casa”, relata.
Dentro da sala, os desafios eram ainda maiores. Havia crianças que nunca tinham frequentado a escola e outras que não tinham tido acesso a materiais básicos, como lápis e caderno. A professora também precisava solicitar melhorias na estrutura, já que não havia bebedouro nem pia adequada.
“As crianças não eram alfabetizadas, tinham muita dificuldade. Tinha criança que nunca tinha tido acesso a um lápis, a um caderno. A gente não tinha uma pia decente, não tinha bebedouro. As crianças tomavam água de um balde, não tinha um quadro decente. Eu ia pedindo para a secretaria: ‘Como é que a gente vai trabalhar? Como é que as crianças tomam água?’”, relata.
Apesar das dificuldades, a experiência se tornou um marco na formação profissional de Edinar. Ela conta que, no começo, duvidava da própria capacidade de alfabetizar, mas acompanhou o desenvolvimento dos alunos e passou a perceber os resultados do trabalho.
“Minha experiência com aquelas crianças foi algo muito divino, algo que levo para a vida. Eu aprendi muito, muito com aquelas crianças. Eu achava que não conseguiria alfabetizar ninguém, e aprendi a ensinar ali. Quando chegou o final do ano letivo e vi crianças que aprenderam a ler, aquilo foi muito gratificante”, afirma.
Uma amizade que atravessou a faculdade
Enquanto Edinar conciliava o trabalho na produção de alimentos com as aulas de Pedagogia, Vanderli Dias também enfrentava dificuldades para concluir a formação. Natural de Mâncio Lima, ela conta que a escolha pela área começou, em parte, pela disponibilidade do curso de Magistério onde morava e pelo exemplo da mãe, que também foi professora.
“Minha mãe era professora, hoje já está aposentada, e foi meu exemplo para seguir essa carreira. De vez em quando eu ia trabalhar no lugar dela, e isso foi o bastante para me impulsionar na minha carreira de professora”, explica Vanderli.
A formação, porém, exigiu esforço financeiro. Durante o dia, ela trabalhava em uma loja; à noite, frequentava as aulas. Sem condições de arcar com todos os custos, contou com a ajuda de colegas para conseguir materiais de estudo e realizar as atividades.
“Foi muito difícil, devido a eu trabalhar em loja o dia todo e ainda estudar à noite. Não tinha muita condição financeira. Muitas vezes fui ajudada por colegas de turma, que tiravam xerox de apostilas para mim. Se não fosse o incentivo e a ajuda de uma grande amiga que jamais vou esquecer, eu não teria conseguido da mesma forma. Ela tanto me ajudava financeiramente como nas atividades. Sou grata a Deus por ela ter existido na minha vida”, afirma.
A amizade construída durante a graduação permaneceu, e as duas seguiram na educação. Vanderli trabalhou nas escolas Belo Jardim e Manoel Machado, onde continua atuando. Hoje, leciona para crianças do 1º e do 2º ano do ensino fundamental, etapa em que o trabalho de alfabetização exige acompanhar de perto o desenvolvimento de cada estudante.
“Aprendi com a profissão de professora a ser paciente, ter empatia com os alunos e os pais e ter amor pelo que fazemos, porque, se não tiver amor, não adianta entrar na profissão”, diz.
A realidade da escola rural em Rio Branco
A Escola Manoel Machado, onde Vanderli trabalha nos turnos da manhã e da tarde, fica em uma área rural do município de Rio Branco. Apesar de estar dentro da capital, a realidade de parte dos estudantes é marcada pelas condições dos ramais, que podem dificultar o deslocamento, principalmente quando chove.
A professora explica que a unidade tem boa estrutura e acesso adequado para os profissionais, mas o caminho até a escola não é igualmente simples para todos. Para os alunos, o barro e o acúmulo de água nos ramais durante o período chuvoso podem representar um obstáculo para chegar às aulas.
A experiência na zona rural é, para Vanderli, uma parte fundamental de sua formação como educadora. Ela afirma que aprendeu muito na Escol e que o trabalho exige compreender a realidade dos estudantes e de suas famílias.
“Tive uma ótima experiência na zona rural e tudo que sei e que aprendi até hoje foi na zona rural principalmente na escola que trabalho atualmente que é a Manoel Machado”, contou.
Os desafios de continuar ensinando
Mesmo com a experiência acumulada, Vanderli reconhece que a profissão mudou e que hoje já chegou a pensar em desistir. Ela lembra que, durante contratos temporários de dez meses, havia períodos em que os professores ficavam sem receber salário nos primeiros meses do ano, até a assinatura de um novo contrato. Atualmente, ela trabalha por contrato provisório, renovado a cada quatro anos por meio de concurso.
“Nunca tinha pensado em desistir, mesmo diante das dificuldades, mas hoje meu pensamento é outro e já pensei em desistir várias vezes. A educação não é a mesma de antigamente, ou seja, os alunos também não são os mesmos. Tudo mudou”, afirma.
Entre os principais desafios, Vanderli aponta a relação entre escola e família. Na avaliação dela, parte dos responsáveis transfere aos professores responsabilidades que deveriam ser compartilhadas, o que aumenta a sobrecarga de trabalho.
“Os principais desafios são as famílias, não são todas. Não temos uma conexão com a família. Hoje em dia, a família deixa tudo nas mãos dos professores, até porque a educação vem de casa, e isso traz uma sobrecarga para os professores”, diz.
Ela afirma que o aspecto financeiro também pesou em sua decisão de permanecer na carreira. Apesar das dificuldades, acompanhar o desenvolvimento dos estudantes continua sendo uma das partes mais gratificantes do trabalho.
“É um significado de dever cumprido. Quando você faz com amor, tudo flui. Ver pessoas hoje com uma profissão e saber que você ajudou aquela pessoa a ler e escrever não tem dinheiro que pague. Hoje eu ensino crianças que são filhos dos meus alunos, e isso é gratificante para minha profissão”, afirma.



















